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sábado, 14 de outubro de 2017

Em cada baga

.Vladimir K.

Em cada baga de azevinho, o contorno
do berço onde embalas recordações.
já não vives no peito das árvores
nem nas penas dos piscos.

tudo escorre no tempo sem luz,
só com o brilho do limo onde fecunda  
o sumo verde das correntes cristalinas.
abraças o amor da sombra que se foi

com o outono num último adeus ao sol .
mas tudo vibra na nudez que te cerca.
as nuvens encobrem os braços exaustos
da renda das árvores empalidecendo

o restolho musguento onde tudo dorme,
exceto os caracóis sonâmbulos,
invadindo o sono das folhas.
despertas da alucinação que enche

o teu peito de paz, para voltar à casa
onde te esperam outras alegrias,
nesta espécie de turbilhão  branco
em sossego, feito de harmonia.

( Reeditado)

Manuela Barroso, Eu Poético VII

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

 Claude Monet

As lezírias perfumavam a distância
no pequeno bago de arroz.

Enchia-se o vale de ti,
na aragem morna, procurando
o verde dos teus olhos.
Não pergunto onde tu estás.
Vejo-te em cada pupila de flor
que escuto.
E estás na sombra de cada pétala
que escreve a poesia do teu nome.
Procuro ouvir-te, atravessando os
charcos saltitando de vida.

O chão não apodreceu.

A vida é a “anima” da beleza
de Ser e Estar vivo.
Na aridez tórrida do deserto
no enigma do escorpião
no lodo do pântano
nos mosquitos em multidão
no oásis mais belo
...tudo está em comunhão

 Na lama senta-se a flor
num anfiteatro de folhas,
crescendo no capim,
onde se vai fechando a luz.
Pernoitam os insetos
ruminando a noite calada.
Tudo dorme.

Espero-te
no colo das minhas mãos
na ternura da madrugada.


Manuela Barroso
(reeditado)









sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Pega em mim


 nelly tsenova

Pega em mim
e desloca-me entre o toucado de acentos
e a melodia das sílabas.
Ajuda a deslizar esta brancura vazia
na imagem ténue
que se enrola na palavra.

Atei a _ o _ fogo nestes fios
que vão acordando num despertar lento
e soletra o sussurro
nos subúrbios do poema.

Manuela Barroso


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Acompanhaste


Acompanhaste, amado, os passos peregrinos
à procura de nada?corri veredas entre muros,
estalando nos contrafortes de musgo sepultado
nos anos, morrendo de tempo. penetrei nos
córregos entre o silvado procurando as amoras
da vida. só encontrei sal nos picos dos valados
íngremes, escorregadios. atravessei a simplicidade
do monte e dormi na clareira roxa de violetas.

no êxtase do perfume, sentei o pensamento
no joelho das pedras e adormeci no regaço
do tempo. não havia mundo, só o aroma roxo
era a plenitude na fugacidade da existência.
não havia ruído. o aroma roxo era agora a
música dos sentidos. a luz  era o segredo
roxo nas  violetas dos teus olhos, amado,
 preenchendo a fome da cor.

 e tudo ficou mais negro com esta humanidade
descolorida, sem norte. amor

orfã de mim, procuro o tempo que  existe no vazio.
só ele preenche a minha sede neste mundo egoísta,  frio.

Manuela Barroso, “ Eu Poético”


sábado, 12 de agosto de 2017

Quando


 christian shole
 Quando eu for um sonho de flores transparentes
no cais da minha madrugada,
arrasta-me na sombra das tuas águas
para um porto florido
no infinito das minhas noites.

Quero ser o vitral que emoldura
os meus tédios,
na verticalidade das suas misteriosas cores,
transportando o seu estranho vulto,
numa consciência ausente
onde murcham os jardins,
como uma floresta de silêncios.
E abrir-se-á uma porta por onde entram brisas
que se escondem de mim,
perfumando o salão da minha alma,
como grinaldas de primavera;
entoarão alegrias orvalhadas,
num cortejo de violinos,
tecido pelos teus dedos.
E o teu vulto circunspeto,
distante,
amorfo
e frio,
permanece imóvel,
em lábios húmidos
que procuram a sedução
no silêncio das horas da tarde,
que vão descendo em cortejo luminoso,
de inquietantes intensidades de entardeceres.

Serei para sempre
o pórtico de uma metáfora,
escrita no inconsciente de uma alma,
sedenta de sorrisos de estrelas,
em cortinados de tédios,
no claustro da minha noite.

Assomarei  no nevoeiro incógnito,
atravessando o cetim das tardes,
com sabor a noite,
na saudade do infinito!

Manuela Barroso, in “Inquietudes”, 2012-Edium Editores